Opinião “Zalatune” de Nuno Gomes Garcia

Título: Zalatune

Autora: Nuno Gomes Garcia

Edição: Janeiro 2021

Páginas: 280

Editora: Manuscrito

ISBN: 9789898975751

Sinopse

Em Ínsula, uma ilha perdida algures no Mediterrâneo, os estrangeiros são inimigos, a procriação é uma missão patriótica (e, por isso, todas as mulheres são obrigadas a ter pelo menos dois filhos), a pena capital foi reinstaurada e a Internet foi substituída por uma Intranet insular.

Naquele que parece ser um regime político verdadeiramente democrático, a vida do primeiro-ministro é acompanhada por câmaras 24 horas por dia, para garantir a total transparência do poder, e são os cidadãos que decidem o futuro do país, sentados no conforto do sofá, através de referendos online. em 2034, está na mão dos eleitores dar luz verde à decisão de construir um muro e expulsar de vez todos os imigrantes.

Só que o passado insiste em perseguir-nos e o desígnio traçado trinta anos antes por uma criança está prestes a cumprir-se: as pessoas estão a desaparecer e, para trás, deixam um único rasto, um pedaço de papel onde se lê Parti para Zalatune.

O que está a acontecer?
Para onde vão as pessoas que desaparecem?
Estará a existência de Ínsula condenada?

Numa trama viciante, Nuno Gomes Garcia apresenta-nos uma história que combina mistério, conspiração política, ódio visceral e ainda um amor proibido entre duas pessoas que deveriam detestar-se.

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Opinião

Uma distopia ao mais alto nível.

De início, caímos em Ínsula desamparados, não percebemos bem o que se está a passar ou onde estamos, é um pouco confuso. Mas à medida que vamos avançando, vamos apreendendo melhor o cenário e conhecendo os trâmites da vida na ilha, vamos desbravando caminho. Uma verdadeira aventura!

Estamos perante uma sociedade tecnologicamente avançada, centrada em si mesma, autossuficiente, mas assente em ideais radicais como, por exemplo, a pena de morte ou a expulsão de estrangeiros, a quem chamam invasores, onde a promiscuidade é superior à moralidade retrógrada que esses invasores estrangeiros exibem. Uma oligarquia disfarçada pelo poder referendário de um povo submisso e manipulável. Imbuído de uma forte crítica social e política em que a hipocrisia, a corrupção e os fundamentalismos de extrema direita imperam.

É impossível não reparar nas semelhanças com as políticas atuais e com os cidadãos de hoje. É extremamente penoso pensar que nada aprendemos com os erros do passado e que, uma e outra vez, os vamos repetir e perpetuar até à exaustão.

O autor optou pela utilização de uma linguagem cuidada, que não será acessível a qualquer leitor, combinada, por vezes, com palavreado brejeiro, recorrendo ao calão, o que, de repente, nos dá a sensação de um murro no estômago, um sentimento de asco.

É uma história bem estranha e desassossegadora, cuja linguagem utilizada nem sempre ajuda o fluir da narrativa (várias vezes tive de recorrer ao dicionário), com uma envolvência política e social tremenda e que não parece estar assim tão longe dos nossos dias.

Sei que é um livro de que nem toda a gente vai apreciar (ou compreender), desde logo por ser uma distopia, mas do qual gostei bastante.

Deixou-me curiosa para ler outros títulos deste autor português, que não conhecia, em especial “O Homem Domesticado“.

Boas Leituras ❤️

Author: Ana Rute Primo

Licenciada em Educação, com especialização em Pedagogia Social e da Formação, empreendedora e autodidata do mundo digital, apaixonada por livros (tanto faz que sejam em papel como em formato ebook), viciada em bibliotecas e livrarias, adora animais e a natureza, preza o silêncio e o bem-estar físico e emocional. Traz sempre a família no coração. Podem segui-la no instagram em https://www.instagram.com/anaruteprimo .

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